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sábado, 7 de março de 2015

Curso: Como catequizar seus filhos em casa

Do meu outro blog, que tenho com meu marido, reposto:



Você quer aprender como catequizar seus filhos em casa?



Com eficácia, transmitindo doutrina segura e os ajudando a crescer não só no conhecimento da fé católica como na intimidade com Cristo e na busca pela santidade? 

Quer aplicar princípios pedagógicos sérios na catequese infantil no lar e entender o processo de conduzir as crianças a Deus? 

Está perdido quanto ao conteúdo que deve ser passado?

Aguarde o curso em vídeo que estamos preparando eu, Aline, com mais de dez anos de experiência em educação infantil, e meu marido Rafael, profundo conhecedor da doutrina da Igreja e estudioso dos temas da Igreja desde 1994, fundador e diretor-geral do Salvem a Liturgia, e que foi membro por muitos anos da equipe do melhor site de apologética em língua portuguesa, o Veritatis Splendor, além de ter artigos publicados no site oficial da Congregação para o Clero, no Vaticano, e ser autor de vários livros religiosos recomendados por grandes Bispos. Ou seja, nós dois juntos temos experiência e condições de ajudar você a preparar uma série excelente de aulas para a catequese doméstica dos seus filhos.

O Rafael e eu somos casados desde 2008 e já temos quatro filhos. Ensinamos os rudimentos da fé católica a todos eles, e a mais velha, Maria Antônia, com cinco anos, já está sendo formalmente catequizada justamente com esse método que iremos propor no curso.

Olhem só os temas das oito aulas em vídeo que constarão do curso:

Aula 01: Apresentação
Aula 02: A função dos pais como catequistas e o propósito da catequese no lar
Aula 03: Princípios pedagógicos aplicados à catequese no lar
Aula 04: Os temperamentos e como isso influencia no aprendizado da criança
Aula 05: Respeitando a maturidade da criança, mas incentivando-a a ir além
Aula 06: Como preparar um bom plano de aula
Aula 07: O conteúdo do livro de catequese e como tirar maior proveito dele
Aula 08: Preparando seus filhos para se confessar e comungar

Além dos vídeos, um e-book em PDF, pronto para ser impresso, e com o conteúdo das aulas de catequese para o seu filho, será enviado a todos os que se matricularem. 

O investimento será acessível a todos e o material que já estamos organizando está muito bom.

Em breve, mais informações, o modo de efetuar a matrícula e realizar o pagamento. Tudo rápido, simples e muito barato - ainda mais pensando no tesouro da fé que você passará ao seu filho, maior bem que podemos deixar de herança.

Fique atento e não perca essa oportunidade!


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Be like Audrey: 10 maneiras de ser adorável, feminina e elegante

Quem me acompanha já deve saber que tenho Audrey Hepburn como um dos ícones de elegância, modéstia no vestir e inspiração para ser adorável e feminina. O estilo dela realmente me fascina.

Uma determinada página católica que também fala do assunto modéstia, todavia, insistiu em uma série de "indiretas" ao meu apostolado, como se eu colocasse Audrey Hepburn no lugar da Virgem Maria, ou tivesse a atriz como meu exemplo maior de virtudes. E ainda acrescentaram que, por ter sido casada várias vezes e ter interpretado um papel de prostituta em um filme, ela não poderia nunca ser imitada.

Qual o problema de uma atriz interpretar um papel? Então os filmes não teriam bandidos e acabam os seriados policiais. Em um filme de terror, quem fará o papel do monstro? A prostituta foi no filme Bonequinha de Luxo. E o filme NÃO exalta a prostituição, mas mostra a infelicidade de uma acompanhante de luxo (prostituta, claro), que não tem objetivo na vida, um norte, e nem um amor, e como ela descobre tudo isso ao remover as barreiras que ela mesmo construiu para se proteger do mundo. O filme retrata também o valor da amizade e como a confiança deve ser construída aos poucos. Possui uma bela lição moral.



Bem, católica não era e certamente foi moldada por critérios mundanos. Ainda assim não há nada nela que imitar? Ora, virtudes humanas, HUMANAS, independem de santidade ou heroísmo nas virtudes sobrenaturais. Audrey não é imitada por mim como se uma santa fosse, mas tida como exemplo naquilo que ela pode servir de exemplo. E só. Nada mais do que isso. Aliás, os Padres e Santo Tomás viam virtudes humanas nos pagãos. A página a que me referi insinua que eu coloco a atriz no lugar de Nossa Senhora, que não tenho a Virgem por modelo e sim a Audrey. Isso é um disparate e uma ofensa, o que já bem mostra a intenção dessa outra página, que até mesmo o nome do meu apostolado plagiou. Dá para levar a sério gente assim?


Pensando nisso resolvi compilar alguns dos motivos que me levam a considerar que ter Audrey como um dos modelos nos fazem mais adoráveis, femininas e elegantes.

1. Audrey era discreta e não se vestia de modo extravagante.


Vejam o jeito como ela se trajava. Não falo do figurino dos filmes. Ali ela era um personagem. Falo das roupas da vida real. Sempre discreta e feminina. Usava calças de modo natural. Priorizava vestidos e saias. Cortes delicados. Nada de ousadias, grandes fendas, decotões. Audrey é o contrário de uma Lady Gaga e de uma Paris Hilton. Suas roupas faziam com que ela brilhasse sem precisar chocar. E elas não chamavam a atenção para um determinado atributo: a Audrey Hepburn completa transparecia em suas vestes.


Claro que se você não tem um estilo clássico, nem sempre poderá aproveitar o guarda-roupa semelhante ao dela, mas é possível adaptá-lo, com sabedoria e bom senso, a qualquer estilo.

2. Audrey pensava nos outros e inspirava bons exemplos.

Audrey é um exemplo de superação pessoal e, mesmo de origem nobre, passou privações e soube dar a volta. Aliás, Audrey honrava exatamente essa vocação da nobreza, que foi perdida, em grande parte, após o Renascimento, e mais ainda com o aburguesamento da vida moderna. O nobre, na tradição clássica, é aquele que tem determinada condição de vida para liderar, inspirar e proteger. Um nobre é um descendente de uma determinada casa ou dinastia que teve em seu fundador alguém tão destacado por seus serviços (proteção à nação, valor em combate, capacidade de liderança etc) que foi premiado pelo rei. 

Sua mãe era uma uma baronesa holandesa descendente de reis ingleses e franceses e seu pai um banqueiro irlandês.

Em um mundo em que muitos nobres - e não-nobres - se esquecem de sua vocação de serviço, Audrey é um exemplo que prega com as atitudes.

Se bem que a ONU deve ser vistas com muitas reservas por sua agenda absolutamente anticristã, pró-aborto, contra a família, Audrey ajudou o UNICEF, fundo ligado à Organização, no combate à fome e na distribuição de mantimentos e alimentação em zonas atingidas pela guerra e pelos desastres naturais.



3. Audrey detestava a vulgaridade, e amava o luxo, mas sem excessos.

Amar o luxo pelo luxo é vaidade. Gostar dele pelo que o luxo evoca pode ser bom. Apreciação estética, demonstração da beleza da vida, sofisticação das formas, e combate prático a uma moda vulgar. Essa foi a missão de Audrey no mundo da moda. Você nunca verá Audrey Hepburn comportando-se como essas atrizes modernas, lésbicas, drogadas e bêbadas por aí, vestindo microssaias que mostram até o útero. 

Por vezes, ela não estava exatamente modesta? Pode ser. Mas lembremos que ela não era informada por valores completamente cristãos. Ainda assim, ela é um exemplo para muitas meninas que vão à igreja hoje de forma indecente.

Até o jeito dela fumar era elegante. Não parecia essas chaminés ambulantes que andam apertando seus cigarros com força, pouco ligando para o prazer do ato. Audrey era delicada até nisso.

4. Audrey apostava no clássico preto e branco, porém sabia ousar com seu red dress.

A frase se explica, não? Audrey era clássica, mas flertava com a sofisticação. Certa ela. O terreno seguro é o nosso chão, mas, se temos olho bom e um espelho em casa, podemos dar uns saltos de vez em quando.


5. Audrey sabia combinar o look despojado com toques de elegância, abusando das malhas e tricôs, sapatilhas e scarpins.

Vestido longos, saias lápis, casacos bem ajustados, peles, luvas, chapéus, pérolas, tudo elegante. Mas nem sempre estamos assim impecáveis, não é mesmo? Audrey mostra bem isso: até um look casual pode ter um upgrade se acrescentarmos os itens certos para a sua composição.

 

6. Audrey valorizava a elegância externa como uma expressão de sua elegância interior.

É atribuída a ela esse pensamento: 

"Para ter lábios atraentes, diga palavras doces. 
Para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas.
Para ter o corpo esguio, divida sua comida com os famintos. Para ter cabelos bonitos, deixe uma criança passar seus dedos por eles pelo menos uma vez ao dia. 
Para ter boa postura caminhe com a certeza de que nunca andará sozinha."

Isso mostra como para Audrey Hepburn elegância era um conjunto, e não só um reboco exterior.



7. Audrey não buscava transparecer sensualidade.

Hoje, o mundo do cinema valoriza Megan Fox suando, com os seios quase à mostra, e uma calça que faz todo o contorno do bumbum e das coxas. Uma atriz na Rede Globo é mais valorizada quando aparece nua e com olhar sedutor, ou usando uma minissaia que mostra as calcinhas.


Audrey é o oposto de tudo isso. Sua postura e suas roupas mostravam que ela era mulher, valorizavam os seus atributos, deixavam claro que era bonita, mas o estilo fatal não existia ali e nem era sua intenção que existisse.

Ao contrário de tantas que nem mesmo a idade conseguiu emendar e gostam de se vestir, aos 60 e 70, como se fossem menininhas (e menininhas beeeem vulgares) de 20, Audrey soube envelhecer com dignidade.





8. Audrey era delicada e graciosa.

Esse ponto completamenta o anterior. Todos os traços de Audrey Hebpurn exalavam feminilidade, nos seus mínimos aspectos. Cheguei a escrever sobre isso analisando a foto abaixo, em um texto antigo, que transcrevo com uma ou outra modificação.


Audrey Hepburn está emblemática nesta foto. Seu porte cheio de nobreza, a distinção nos gestos, a calma, a afabilidade que é natural e não forçada, a correção na postura sem ser, todavia, pedante ou afetada, o apuro nas vestimentas denunciam uma figura em tudo dotada de feminilidade. A mulher adorável mostra-se nos seus gestos delicados e suaves, no seu sorriso simples, discreto, porém verdadeiro. Possui uma força de alma inquebrantável, um signo de cordialidade e paz, e uma douceur de vivre. Ela é toda encantadora.

A harmonia de seus traços combina com a grave suavidade com que ergue o rosto e com que fecha delicadamente as pálpebras. Uma maquiagem cândida, contrária a exageros e, por outro lado, a falsas naturalidades descabidas. O colar e o brinco, ambos de pérolas, indicando leveza. O coque combinando com o discreto chapéu, e as luvas sinalizando aristocracia. Não há nervosismo em seu aspecto.

O próprio modo como segura o segura o cigarro é característico: sem a vulgaridade tão comum em muitos que fumam, e, por outro lado, sem aquela artificialidade de quem quer soar aristocrático, e fumando de maneira absolutamente despreocupada. Mas o mais significativo é o seu olhar, ele é expressivo ao ser singelo e altivo. Ao mesmo tempo, há toda uma seriedade em sua fisionomia que se destaca em relação aos sorrisos fáceis de hoje em dia. Não que Audrey não sorria (tem, aliás, um sorriso cativante, como se nota em outras cenas), mas não lhes parece que hoje todos mostram os dentes com desnecessária constância?



9. Audrey era educada, culta e requintada em seus gostos, mas sem afetação.

Nossos tempos são tristes. A ignorância, a falta de estética e a breguice são exaltadas, em programas como o "Esquenta", da Regina Casé, ou na glamourização do funk carioca e seus subprodutos.

Por outro lado, alguns que se insurgem contra essa moda terrível e demolidora da cultura tradicional, se portam como esnobes e afetados.

Audrey Hepburn tinha educação, cultura e requinte. Apreciava as coisas belas da vida. Mas não era esnobe, não era caricata.

Tinha uma alegria de viver e gostava do que era bom, admirando a alta cultura, a literatura, as artes, bons vinhos, boa comida, viagens em grande estilo, sem aquele ar de falsa superioridade.

Tudo nela era natural. Não vivia, na vida real, Audrey Hepburn, um personagem da cultura e da elegância. Ela era culta e elegância por ser quem era, e por valorizar isso. É algo a nos ensinar.

10. Audrey tinha um olhar charmoso e lábios sorridentes, cultivando simpatia e uma aura de mistério, transmitindo segurança própria e alegria de viver sem exageros e descomposturas.

É o que procuro fazer, ainda que, como uma gaúcha típica, não seja lá muito de ficar mostrando os dentes.

O olhar que transmite uma mensagem. Lábios que, quando sorriem, não forçam. Simpatia aliada a algo desconhecido - e qual mulher precisa ficar escancarando sua vida? Isso faz perder o encantado, e os homens querem descobrir, querem se aventurar, querem ter algo de mistério a desvendar -; isso tudo mostra autoconfiança, amor próprio, segurança. A alegria natural de Audrey Hepburn nos ensina que austeridade pode conviver com austeridade, que modéstia não é andar como maria-mijona, que elegância não é ser um cabide de roupa da vovó nem comprar as coisas mais caras do mundo.

Vejam algumas fotos da Audrey que eu gosto muito abaixo.





Bom, pessoal, era isso. Espero que tenham gostado e, se ainda não são, se tornem fãs dessa grande figura que foi Audrey Hepburn. Aos que estão preocupados com a vida que ela levou, em vez de acusações genéricas - e sem contextualização - a pessoas mortas que não sabem se defender, façam, como católicos que dizem ser, uma oração pela sua alma para que tenha o repouso eterno junto de Deus.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Crise da feminilidade


É um erro atribuir a crise da feminilidade exclusivamente às pretensões feministas. Claro que elas têm sua parcela de culpa, mas muitas vezes são meras conseqüências de equívocos anteriores, radicalização de uma bandeira para combater um excesso antagônico. De certa forma, o colapso do papel da mulher se deve também ao fato de que muitos homens, desde pouco depois da Revolução Industrial, esqueceram qual a sua missão específica.

Quem é a mulher? O que ela é? Onde reside sua dignidade?



A dignidade da mulher procede primeiro de sua natureza humana. Igual ao homem em essência, criada, pois, por Deus, é digna por si só, é digna por ser imagem e semelhança do Criador, é digna por sua ontológica liberdade, por sua vontade, sua idoneidade intelectual. Sem embargo, há uma fonte de sua dignidade: a capacidade de ser mãe. A maternidade, ainda que não se efetive em todas, por vocação ou por alguma impossibilidade física ou psicológica concreta, está presente em potência no gênero feminino e é ela que faz a mulher ainda mais semelhante a Deus em seus acidentes. Os cristãos entendem que, como o Pai gera o Filho, a mulher pode gerar sua prole. É uma participação toda especial no ato criador. E isso a faz toda especial, tanto quanto o homem em sua essência, e, ouso dizer, mais do que ele em seus acidentes por esse caráter sagrado de gerar vida.

Ao contrário do que muitos sustentam, o cristianismo não vê nem nunca viu o casamento como um mal menor, como algo a ser meramente tolerado. Pelo contrário, a Igreja Católica ensina que o casamento é tão bom que não apenas foi criado por Deus, como elevado depois, por Jesus Cristo, à condição de sacramento.

E o casamento cristão confere uma igualdade de dignidade à mulher, ao contrário do mundo antigo, em que o marido era dono da esposa. É o cristianismo a primeira grande proclamação de liberdade da mulher. E no casamento, não fora dele, como hoje bradam as feministas. O casamento é a celebração da liberdade e não a promoção da escravidão da mulher. É um locus onde a dignidade da mulher pode ser festejada de modo muito claro, até porque nele é possível, com bastante nitidez, perceber em ato as características psicológicas da mulher, muito ligadas a seus elementos distintivos físicos.

De fato, a mulher se difere fisicamente do homem não só pela anatomia corpórea, como pela maturidade precoce, pelo ritmo assinalado pelo ciclo menstrual, pela ação forte dos hormônios, sobretudo na tensão que antecede o fluxo, e pela potencialidade de marcar sua existência pela gravidez, nascimento dos filhos e amamentação. Ademais, é notória, em linhas gerais, sua maior vulnerabilidade em relação ao indivíduo do sexo masculino.

Nesse sentido, entendendo-se o ser humano como um ser integral, é inevitável que se chegue a conclusão da existência de características psicológicas próprias da mulher, distintas do homem. Claro, isso não invalida que cada mulher seja única em seu aparelho psíquico, assim como é única em sua conformação física; nem que existam determinados grupos de temperamentos que distingam mulheres umas das outras, aproximem igualmente umas das outras e, até mesmo, as façam semelhantes, por eles, a alguns homens com os mesmos temperamentos, ao menos em alguns aspectos. Há, sem embargo, traços gerais emocionais e espirituais que são específicos do feminino, em contraposição ao masculino. Como fisicamente se completam os corpos masculino e feminino, também  nas idiossincrasias psicológicas isso ocorre.

Se o homem é o caçador, a mulher é a protetora da casa. Ela está – como expõe Carlos Ramalhete – mais para primeiro-ministro do que para ministro das relações exteriores. Isso parte da premissa psicológica de que a mulher tem todo um ajustamento interior para a defesa, mais do que para o ataque. E essa atitude de defesa é própria de quem tem por missão – adequada a seu físico preparado para a concepção, gestação e nascimento -  os primeiros cuidados com a prole.

Daí que a feminilidade seja receptiva. É próprio dela receber a “semente” do homem em seu seio, gestando e guardando a vida humana desde o seu início. Ela é a destinatária do amor para, sendo amada, amar. Ensina João Paulo II: “Quando dizemos que a mulher é aquela que recebe amor para, por sua vez, amar, não entendemos só ou antes de tudo a relação esponsal específica do matrimônio. Entendemos algo mais universal, fundado no próprio fato de ser mulher no conjunto das relações interpessoais, que nas formas mais diversas estruturam a convivência e a colaboração entre as pessoas, homens e mulheres. Neste contexto, amplo e diversificado, a mulher representa um valor particular como pessoa humana e, ao mesmo tempo, como pessoa concreta, pelo fato da sua feminilidade. Isto se refere a todas as mulheres e a cada uma delas, independentemente do contexto cultural em que cada uma se encontra e das suas características espirituais, psíquicas e corporais, como, por exemplo, a idade, a instrução, a saúde, o trabalho, o fato de ser casada ou solteira.” (Mulieris Dignitatem, 29)



A presente crise da feminilidade é, pois, uma negação, total ou parcial, do exposto acima, e gera os tremendos desequilíbrios da sociedade atual. Mas essa crise é, ao menos em alguns pontos, consequência da crise da masculinidade.

Os homens, há tempos, vem sofrendo com a crise do secularismo, segundo Alice Von Hildebrand. Pais de família creram que, para obter reconhecimento, tinham que ter poder, dinheiro e tudo que esteja ligado a eles, desprezando qualquer outra atividade que lhes seja também natural, ainda que secundária, como o cuidado com sua família. O homem se burocratizou e isso atingiu em cheio a masculinidade.

A família para esses homens virou apenas lazer ou acessório para ostentação social. Levando ao sofrimento da esposa e de seus filhos. Os casamentos começaram a ruir, pois mulher nenhuma suporta tanto desprezo e abandono. Tampouco ver essa apatia com sua prole.

Um dos sintomas da crise de identidade feminina é a fuga da dor de muitas mulheres atuais. Isso é uma clara manifestação de hedonismo. Grande parte das mulheres de hoje fogem da dor porque foram formadas no feminismo, que se transmite não só em postulados teóricos e acadêmicos, mas na visão que o mundo nos oferece do papel da mulher, nos veículos de comunicação, e até nas conversas informais, do salão de beleza ao restaurante com as amigas. E o feminismo copia não o homem, mas o homem piorado do fim do séc. XIX, de todo o séc. XX e do início do séc. XXI, com seus prazeres desmedidos, e com uma visão de trabalho não integrado ao lar, como explicou a Dra. Alice mais acima. É o homem aburguesado…

Primeiro é o homem que foge às suas responsabilidades de marido e pai, deixa de estar presente com a família e se concentra só no trabalho, mas não necessariamente para prover a família, e sim para juntar dinheiro e desfrutar de prazeres – alguns lícitos até, em si mesmos. A mulher, ao querer a independência, vai copiar esse modelo de homem, e não o “antigo”. A crise do feminino nasce de uma crise do masculino. E aquela vai gerar uma nova crise masculina hoje em dia, que não é, todavia, o propósito deste artigo, porém merece ser relembrada: é ela que cria tanto o neo-brutamontes do tal “movimento masculinista”, machão e “pegador”, desprezador da mulher, que a considera sempre ou na maioria das vezes uma vagabunda, quanto o sensível em excesso, piegas, que, querendo poupar a mulher de alguns dissabores – o que faz bem – acaba por assumir papéis femininos – o que faz mal –, e, enfim, cria também o metrossexual, que com sua namorada compete por cremes e tratamentos de beleza.

Para enfrentar a desfiguração da mulher, não basta atacar os fundamentos do feminismo, aderindo a eles com a mesma disposição de quem sustenta os clichês daquele. Pelo contrário, como a destruição de um castelo de cartas leva bem menos tempo e paciência do que reconstruí-lo, urge fazer um trabalho de formiguinha, em todos os campos, para reerguer em sua dignidade o ser humano completo, mulher e homem.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Strawberry fields forever

Morangos lá de fora, da estância! Amo a vida no campo!



E viraram potes e mais potes de geléia caseira, copos e mais copos de batida (nome pelo qual é conhecida a "vitamina" aqui no Rio Grande do Sul: leite, açúcar e frutas batidas no liqüidificador), e tacinhas e mais tacinhas de sobremesas.

Uma pena que as mulheres atuais, em sua grande maioria, esqueceram de desenvolver esse grande dom de sua feminilidade que é a aptidão natural para as prendas domésticas.





terça-feira, 4 de novembro de 2014

4 virtudes da feminilidade cristã

1) A mulher cristã é corajosa.

"Todos os servos do rei e o povo de suas províncias sabem bem que, para quem quer que seja, homem ou mulher, que penetrar sem ser chamado na câmara interior do palácio, há uma lei real condenando-o à morte, exceção feita somente àquele para o qual o rei estender seu cetro de ouro, conservando-lhe a vida. E eis que são já trinta dias que não sou chamada junto ao rei.

As palavras de Ester foram referidas a Mardoqueu, e este lhe mandou responder: 'Não imagines que serás a única entre todos os judeus a escapar, por estares no palácio. Se te calares agora, o socorro e a libertação virão aos judeus de outra parte; mas tu e a casa de teu pai perecereis. E quem sabe se não foi para essas circunstâncias que chegaste à realeza.'



Ester mandou responder a Mardoqueu: 'Vai reunir todos os judeus de Susa e jejuai por mim sem comer nem beber durante três dias e três noites. Eu farei a mesma coisa com as minhas criadas. Depois disso, apesar da lei, irei ter com o rei. Se houver de morrer, morrerei.'" (Est 4,11-16)

Olhem a coragem da rainha Ester, que é louvada pela Igreja como uma grande santa do Antigo Testamento. Ela não foi chamada à presença do rei durante um mês inteiro. Sua fé destemida, apoiada em inabalável confiança no poder de Deus, a encorajou a desrespeitar o costume e a lei do rei e a entrar em sua presença mesmo com o grande risco de perder a sua própria vida!

Isabel, a Católica, rainha de Castela e que consolidou a Reconquista da Espanha aos mouros e unificou seu país, patrocinando depois, a viagem de Cristóvão Colombo para descobrir a América, é um exemplo perfeito de mulher que, sem perder sua feminilidade, soube desempenhar o altíssimo papel que a Providência lhe reservara na sociedade.

Esposa e mãe exemplar, delicada, feminina, sempre se arrumando bem e se preocupando também com o exterior, tratou com maestria de, com seu marido, Fernando, o Rei Católico, conduzir os negócios de Estado, administrando a Justiça, presidindo tribunais, e mesmo galopando centenas de quilômetros durante as guerras contra os muçulmanos, para conseguir reforços e aumento no recrutamento de soldados. Isabel estava sempre presente por ocasião das entregas de fortes e fortalezas dos maometanos, e nesses episódios portava espada e armadura.

A Rainha Isabel conjugava sua feminilidade, sua vocação principal de mãe e esposa, os deveres de estado no lar, com os as coisas próprias do governo e da guerra, os deveres de estado na sociedade. E tinha sabedoria para discernir o que Deus queria dela em cada área de sua vida por ser piedosa. O título de Rainha Católica não era nela uma formalidade: rezava o breviário diariamente, assistia Missa também diariamente, confessava-se e comungava com frequência, submetia-se a um diretor espiritual, procurou reformar as Ordens religiosas e os mosteiros espanhóis, e proveu a América recém-descoberta a instâncias de sua Coroa de missionários, pregadores e Bispos para a conquista espiritual dos indígenas, além de promover a evangelização de judeus e muçulmanos, sempre deixando claro que se deveria proceder com amor e prudência, sem forçar os batismos.

E como exercemos essa coragem cristã feminina hoje? Recebendo os filhos que Deus nos dá. Aguentando as pauladas que levamos do mundo quando nos olham torto por conta de nossa fé. "Matando no osso do peito" as críticas por irmos à igreja todos os domingos, pautarmos nossa vida pela vontade de Deus, sermos fiéis aos nossos princípios, estarmos abertas à vida, termos vários filhos. É a coragem de ir contra a corrente para fazer o que Deus quer, e, mais ainda, não apenas fazer tudo isso por obediência, mas com alegria, e nos realizando como mulheres do Senhor!

A coragem se manifesta como virtude na mulher de um jeito diferente. A própria feminilidade pode ser traduzida como um tipo especial dessa coragem. Ao ficarmos grávidas, nossa coragem é expressada de maneira sublime, pois oferecemos não uma ajuda, e sim o nosso próprio corpo para o nosso filho. Gestação e parto são formas especiais da feminilidade e, portanto, da virtude da coragem. O próprio casamento é um sacrifício, eis que a mulher cristã imola no altar do matrimônio a sua própria liberdade exercida de modo pleno, colocando-se submissa ao marido.

A Bíblia nos diz que a mulher virtuosa "[c]inge os rins de fortaleza, revigora seus braços." (Pv 31,17)

2) A mulher cristã é sábia

"Casas e bens são a herança dos pais, mas uma mulher sensata é um dom do Senhor." (Pv 19,14)

A sabedoria é uma consequência da vida da mulher que sabe escutar a sua própria feminilidade. Evidentemente, cada temperamento e estrutura psicológica age de forma diferente em cada mulher. Nenhuma mulher é igual a outra. Há, todavia, uma como que tendência inata na feminilidade, compartilhada, em potencial, por todas as mulheres, que é a de não meter os pés pelas mãos. As de temperamento mais colérico ou sangüíneo serão um tanto avoadas, claro, mas uma voz interior as chama a ser mais cuidadosas do que os homens de mesmo temperamento. 

Isso não significa também que toda mulher seja sábia. A sabedoria da mulher decorre da feminilidade, mas da feminilidade entendida, aceita e bem formada. 

Homens, ademais, podem ser sábios, como na primeira virtude homens podem ser corajosos. Entretanto, se a coragem feminina é algo distinta da masculina, a sabedoria de um e outra guarda suas diferenças também. Tanto que a mulher sensata é louvada como um dom de Deus, a mulher sábia, que tem prudência. Ela é o esteio de sua casa, o chão onde seu marido pode se firmar sem cair, o alicerce da família. Sua sabedoria auxilia e aconselha, com docilidade, com sutileza, o marido para que ele possa liderá-la e aos filhos com firmeza, autoridade e caridade.

3) A mulher cristã é receptiva

Maria, a Mãe do Senhor, deu seu "sim", seu "fiat", recebendo a vontade de Deus. Mais ainda: recebendo o próprio Deus que se fez carne em seu seio, para nele crescer e dele nascer para nós no Natal. 

A feminilidade é receptiva. É próprio dela receber a "semente" do homem em seu seio, gestando e guardando a vida humana desde o seu início. Ela é a destinatária do amor para, sendo amada, amar. 

Ensina o Papa São João Paulo II: "Quando dizemos que a mulher é aquela que recebe amor para, por sua vez, amar, não entendemos só ou antes de tudo a relação esponsal específica do matrimônio. Entendemos algo mais universal, fundado no próprio fato de ser mulher no conjunto das relações interpessoais, que nas formas mais diversas estruturam a convivência e a colaboração entre as pessoas, homens e mulheres. Neste contexto, amplo e diversificado, a mulher representa um valor particular como pessoa humana e, ao mesmo tempo, como pessoa concreta, pelo fato da sua feminilidade. Isto se refere a todas as mulheres e a cada uma delas, independentemente do contexto cultural em que cada uma se encontra e das suas características espirituais, psíquicas e corporais, como, por exemplo, a idade, a instrução, a saúde, o trabalho, o fato de ser casada ou solteira." (Mulieris Dignitatem, 29)



É pelo entendimento da receptividade que entendemos melhor o conceito de submissão da esposa ao marido. Falamos, meu marido e eu, sobre isso aqui neste texto.

4) A mulher cristã é delicada

Não se trata aqui de frescura, de coisa de mulherzinha. Aliás, tratei disso no blog Negócios de Família. E também na coluna que mantinha na Revista Vila Nova. Enfim, em outro texto na mesma revista.

Creio que esses três artigos expressam bem o que quero dizer com a delicadeza feminina.

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Espero que tenham gostado. Evidentemente, não são apenas essas quatro virtudes que uma mulher cristã possui. Sua plena feminilidade é cheia de valores humanos e cristãos, e mesmo o cultivo das virtudes pode variar de intensidade de uma mulher para outra. A disponibilidade ao sacrifício, o acolhimento do outro, a entrega, a sensibilidade, o foco no interior, a vocação de mediadora, o amor pelo concreto, a intuição, a ternura e a generosidade, a docilidade e a tranquilidade, são característias que devem estar presentes na alma da mulher cristã.

Quem sabe eu não volte ao tema em outro post? 

Ou até mesmo desenvolva isso tudo em um livro? Já tenho faz tempo a idéia de escrever "A mulher segundo a vontade de Deus". Será que depois de eu terminar o livro sobre moda e modéstia, consigo finalmente começar a escrever esse outro?

Conto com as orações das leitoras!




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

leitor pergunta: sou católico e namoro uma protestante; posso casar com ela?

PERGUNTA:
Cara Aline,
Primeiramente quero dar os parabéns pela divulgação do Domestica Ecclesia. É uma bênção sem sombra de dúvidas para a instituição da família, hoje em dia tão denegrida. Conheci hoje o site e pretendo visitá-lo frequentemente.
Vendo através dele os frutos que colheram não pude deixar de vir pedir auxílio. Entendo se não quiser responder. Estou passando por um momento de dúvida em minha vida.
Tenho um relacionamento com uma mulher, batista, eu sou católico. Não tenho dúvidas de minha fé, e reconheço nela uma pessoa muito boa, de fé em Deus, de valores e virtudes, com exceção a doutrina que compactua, muito galgada pela péssima catequese católica que temos por ai.
A pergunta que tenho feito e o site veio a levantá-la novamente é: será que é possível criar um ambiente familiar como o que tem?
Perdoe-me novamente a invasão. Muitas vezes não tenho a quem recorrer.
Fica com Deus.
RESPOSTA:

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Olá, F.,

Muito obrigada pela tua confiança em escrever-me e pelas gentis palavras em relação ao nosso blog.

O conselho que posso te dar é muito geral, dado que cada caso pede soluções específicas e o melhor seria o auxílio de um diretor espiritual experimentado.

A Igreja permite que te cases com uma batizada não-católica, ou seja, com uma cristã protestante ou ortodoxa. Todavia, deves pedir permissão ao Bispo para isso e te comprometer em oferecer educação católica aos filhos de vocês. Será possível manter um lar cristão, dado que os dois cônjuges são cristãos. Muitos valores e práticas são compartilhados pelos dois. A vontade de Deus será um norte para a família que vocês formarão.

Entretanto, a vontade de Deus, particularmente aplicada, pode ser motivo de discussões, especialmente na educação dos filhos. Mesmo que tu te comprometas a educá-los na fé católica, não há certeza de que tua futura esposa não colocará obstáculos a isso. Também os momentos de oração sofrerão severas limitações: tu rezarás o terço com os teus filhos, e a tua esposa não; tu comemorarás as festas da Igreja com os teus filhos, e a tua esposa participará apenas de algumas que os batistas também celebrem (Natal, Páscoa); os jejuns e abstinências da Igreja terão complicações na observância. Os Domingos verão a família separada, pois tu e os filhos irão à Missa e ela ao culto.

Ainda que a Igreja permita esse tipo de casamento, na prática há muitos inconvenientes, como vês. É por isso que a Bíblia nos alerta para que não tomemos jugo desigual (cf. II Co 6,14).

Um outro ponto a considerar é a possibilidade concreta de, no namoro, ou nos primeiros anos do casamento, levá-la a uma conversão à fé cristã plena, ou seja, ao catolicismo.

Reze muito nessa intenção, procure um diretor espiritual que tenha experiência, seja douto, piedoso e ortodoxo, e te submete aos seus conselhos como à vontade do Senhor.

Da minha parte, asseguro minhas orações na tua intenção e fico à disposição para qualquer consulta posterior.

Peço-te autorização para, omitindo teu nome, publicar esse questionamento e a minha resposta no blog.

Em Cristo,








segunda-feira, 27 de outubro de 2014

9 sinais de que sua concepção de modéstia no vestir está equivocada

Escrevi no Quem Sou aqui no blog:


Sempre gostei de moda e me incomodava o jeito com a vulgaridade e a falta de decência nas vestimentas tomaram conta das passarelas e de nosso dia a dia, demonstrando uma incompreensão quanto à dignidade da mulher. Como dizia o Papa Pio XII, muitas mulheres "perderam o próprio conceito de perigo, o instinto da modéstia."  Mesmo quando eu não era católica, esse problema da sociedade atual já me afetava e eu me sentia agredida com a excessiva sexualização das roupas.
Por outro lado, o tema da modéstia pode ser prejudicado por uma visão que não leva em conta a contemporaneidade, ficar preso às circunstâncias de um tempo que não existe mais, e criar um recato caricato.
"Moda e modéstia deveriam caminhar juntas como duas irmãs, porque ambos os vocábulos tem a mesma etimologia; do latim 'modus', quer dizer, a reta medida, além e aquém da qual não se pode encontrar o justo." (Pio XII)
O blog surgiu a partir de minhas reflexões sobre o estado da feminilidade atual, e sobre a necessidade de ser modesta sem ser brega ou antiquada, e ser moderna e fashion sem ser escrava das tendências e do que a indústria da moda nos empurra.

Trabalho com a formação da feminilidade e escrevendo sobre moda como uma de suas expressões desde 2006, na época do finado Orkut. Em 2008 comecei o blog. Não sou melhor do que ninguém e falta muita coisa para eu estudar e aprender, mas alguma experiência eu já tenho. E puder perceber, nesses anos todos, alguns equívocos quando se fala de moda feminina e cristianismo.






Listo abaixo os que considero mais presentes nas discussões atuais, quer na internet, nas redes sociais e nos blogs, quer no dia a dia das paróquias e movimentos cristãos. São nove sinais de que a sua concepção de modéstia pode não ser tão espiritualmente saudável assim.




1. Entendimento de que só o interior importa

Essa é clássica. E esse equívoco se expressa por diferentes frases como essas ou semelhantes. "Só Deus pode me julgar." "Deus vê apenas o coração." "Minhas roupas não significam nada. O que importa é a alma."

O problema é que, embora o interior seja realmente mais importa, o exterior é um reflexo daquele. A alma é prioridade, mas o ser humano não é um espírito que usa o corpo como se fosse uma roupa. Essa concepção é gnóstica e espírita. O ser humano é uma unidade. Embora corpo e alma sejam diferentes, embora muitas vezes a carne e o espírito lutem entre si, o homem não é uma alma com um corpo: é uma alma e um corpo unidos. Tanto que, quando Jesus voltar, recuperaremos nosso corpo, transformado em glorioso, na ressurreição dos mortos.

O interior se manifesta no exterior.

Jesus mesmo no diz: "O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio." (Lc 6,45) O exterior, pois, deve ser reflexo do interior, e não nos adianta nada cultivar apenas o interior, desdenhando do exterior. O homem é alma unida a um corpo. Claro que a alma é mais importante, claro que esta é a forma, claro que ela é que nos garante a semelhança com Deus, e dela procedem os afetos e as intelecções. Não olvidemos, todavia, que embora menos importante, o corpo é também criação de Deus. Negar isso é cair na gnose, é achar que o corpo é maldito, é ruim. O corpo precisa submeter-se à alma, mas não ser negado ou extinto. Até mesmo o Credo que rezamos em todas as Missas diz que no fim do mundo haverá a ressurreição da carne: não é só a alma que será salva, o corpo também. O homem ressuscitado unirá sua alma salva ao corpo tornado glorioso. A busca da santidade, questão profundamente interior, deve se manifestar no exterior, mormente em nossas vestes, que passam sempre uma mensagem aos outros.

A roupa modesta reflete o Cristo com o qual fomos revestidos no Batismo. De fato, com o pecado de nossos primeiros pais, ficamos nus, mas Jesus nos deu novas "vestes" espirituais: a graça. E essa graça, que nos é dada nos sacramentos, primeiramente no Batismo, deve se refletir em tudo em nossa vida. Ora, queremos símbolo mais eloquente da "veste" da graça do que a veste física? A roupa que protege o corpo sinalizando a graça que protege a alma? Aliás, é interessante observar que o próprio rito do Batismo prevê a entrega de uma veste branca, como símbolo da pureza. "N., és já uma nova criatura, e foste revestido de Cristo. Que esta veste branca seja símbolo de sua dignidade de cristão. Ajudado pela palavra e pelo exemplo dos teus, conserve-a sem mancha até a vida eterna." (Ritual Romano. Rito do Batismo das Crianças)

Sua roupa passa uma mensagem. Esquecer-se disso, achando que só o interior é o que conta, é arriscado para a sua alma e para as dos demais que você convivem. Uma alma realmente pura refletirá a pureza em todos os seus atos e também nas suas vestimentas. Ainda que só o interior importasse, que interior tão puro é esse que não se incomoda de levar os demais ao pecado ou de passar uma mensagem terrível sobre si?

"Não ande por ai mandando mensagens de que seu corpo é a melhor parte de você - implicando que seu coração, seus pensamentos e sua alma não sejam importantes. Ao invés disso, desperte com a sua modéstia, o desejo de conhecerem-na melhor." (Crystalina Evert)

A atriz que interpretou Hermione em "Harry Potter" já se perguntava: "O que há de sexy em dizer 'eu estou aqui com meus seios para fora e uma saia curta, dê uma olhada em tudo o que tenho'?" (Emma Watson)



Atentemos à mensagem que nossas roupas passam. É importante que não sejamos desleixadas, isto é, que sejamos elegantes. Mas é ainda mais importante que não sejamos imodestas, isto é, que observemos o pudor.

À mulher graciosa e fiel se lhe pedem duas coisas na atenção ao que veste: que esteja elegante e que esteja modesta. É possível estar elegante, mas imodesta, como brega, porém modesta. E também se pode estar brega (ou inadequadamente vestida para a ocasião) e imodesta: e a combinação dessas duas coisas torna a mulher vulgar. Somos chamadas, todavia, como leigas no mundo, geralmente casadas ou em busca de matrimônio, a combinar não a breguice com a imodéstia, nem a atentar apenas para a elegância ou só para a modéstia. Nosso desafio é a elegância modesta, o estilo com o pudor, a moda com o recato. E nossas roupas vão dizer, inexoravelmente, o que e quem somos.

A mulher católica é chamada a mostrar ao mundo todo que a virtude do pudor não é desculpa para andar desleixada. Modéstia não é dessaranjo nas vestimentas. É possível conciliar a modéstia com a elegância, o pudor com a beleza dos trajes, ser casta e atraente. Se der mais trabalho, isso lhe será ocasião de exercitar a disciplina e a mortificação.

Pio XI, que institui a festa em 1925, nos ensina na Encíclica Quas Primas, pela qual instituiu a festa de Cristo Rei, ser "necessário que Cristo (...) reine no corpo e em seus membros, que, como instrumentos, devem servir para a interna santificação da alma." (Papa Pio XI. Encíclica Quas Primas, de 11 de dezembro de 1925, nº 34)

Nosso apostolado pela modéstia, tanto nas palestras, no blog, nas redes sociais, sempre procurou transmitir essa idéia. Nossos corpos devem ser protegidos e honrados Cristo neles reinando. Não como ódio ao corpo, pois sabemos que um dia ele ressuscitará e a Igreja em que cremos é católica, não cátara, mas por preservarmos as justas hierarquias: o corpo é importante, mas está à serviço da alma!

Brademos como os cristeros mexicanos: "¡Viva Cristo Rey!" Não só na Igreja, não só na alma, mas na sociedade e nos nossos corpos. Sejam eles santificados pelo nosso pudor e por cobrir aquilo que deve ser coberto!

Se temos um tesouro, não saímos anunciando para todos, não é mesmo? Guardemos o tesouro de nosso corpo, no qual Cristo deve reinar, pela virtude da modéstia, vigilante poderosa da própria castidade e da alheia!

É triste que se fale tanto da modéstia das evangélicas e das judias, como se as católicas não procurassem essa virtude, como se as católicas pudessem se vestir de qualquer jeito, não atentassem ao pudor. É velha generalização que parece indicar que católico é qualquer um, mesmo que não viva sua fé, não se comporte como tal, não desse importância a, por exemplo, se vestir sem desagradar a Deus.

Isso, por um lado, é preciso constatar, origina-se no descuido que muitas moças e senhoras católicas têm, nos últimos anos, para com suas roupas. Realmente, a maioria não está se vestindo com pudor, como convém a uma católica. Todavia, não acho que por conta do erro de várias, deva-se ignorar que católicas buscam, sim, a modéstia no vestir, como se só evangélicas e judias é que "se ligassem" no vestuário recatado.

Vista-se de acordo com sua dignidade!

2. Fuga de qualquer responsabilidade no pecado contra a pureza praticado pelos homens

"Certamente, uma mulher que veste roupa imoral pode condenar-se. E pode condenar-se, quer pelo pecado que comete ela mesma, quer por que causa a condenação de outras pessoas." (São João Eudes) 


Muitas querem um cavalheiro, mas não se comportam como uma dama. Desejam ser respeitadas, mas não se dão ao respeito. Almejam valorização, mas são as primeiras a se vulgarizar, banalizando beijos e afetos, e deixando de cobrir o que de mais precioso possui em seu corpo. Protestam não serem objetos sexuais, contra o machismo, e paradoxalmente não percebem que as roupas que usam (ou a falta delas) denunciam exatamente o que evitam ser. "As mulheres têm poder. Pela maneira com que nos vestimos, pela maneira com que dançamos, e pela maneira com que nos comportamos, podemos convidar um homem a ser um cavalheiro ou a agir como um animal. (...) Para quem tem a coragem suficiente de preferir ser amada por um só, a modéstia é um convite silencioso para que os rapazes sejam homens o suficiente para conquistar nossos corações. É um convite aos rapazes, para que vejam que há muito mais em nós que somente nossos corpos. É por isso que a modéstia é chamada a 'guardiã do amor'. Sem ter que dizer uma só palavra, ela estabelece o padrão do respeito. Mas nós nunca conseguiremos convencer um homem de nossa dignidade sem antes convercermos a nós mesmas." (Crystalina Evert, Pure Womanhood, San Diego, Ed. Catholic Answers, 2008, trad. Daniel Pinheiro) O narcisismo, o hedonismo, a permissividade dos ambientes e costumes, o entendimento absolutamente equivocado do real conceito de liberdade, ultrapassa os valores morais, ignora a ética, escraviza a alma da mulher pela exposição excessiva de seu corpo. A seminudez da mulher atual, o “não ver nada demais” em roupas extremamente curtas, em decotes avantajados, em mensagens claramente sexuais, fere de morte a dignidade da mulher, pela qual a própria cultura atual – que incentiva aqueles comportamentos – diz ser defensora."Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que está em vós e que recebestes de Deus, e que não vos pertenceis? (...) Glorificai, portanto, a Deus no vosso corpo." (1Cor 6,19-20)


Mantenha altos não apenas seus saltos, mas seus padrões. Emma Watson diz: "Quando menos você revelar, mais as pessoas podem se perguntar." E é verdade! A modéstia e o pudor podem cativar mais, podem atrair mais (olhares decentes e relacionamentos duradouros e sérios), podem ser mais sedutores do que adotar a seminudez atual.

Dirige-se à mulher imodesta um grande Padre da Igreja do Oriente: "estás aumentando enormemente o fogo contra ti mesma, pois excitas os olhares dos jovens, arrasta os olhos dos licenciosos e cria perfeitos adúlteros, e com isto te faz responsável pela ruína de todos eles." (São João Crisóstomo, Catequeses Batismais, V,37; +34-38)

3. Negação da importância da moda ou da modéstia

A origem da palavra "moda" é a mesma do verbete "modéstia", como nos ensina um Papa de veneranda memória. "Moda e modéstia deveriam caminhar juntas como duas irmãs, porque ambos os vocábulos tem a mesma etimologia; do latim 'modus', quer dizer, a reta medida, além e aquém da qual não se pode encontrar o justo." (Pio XII) Nesse sentido, a moda será, no mais das vezes, neutra, apresentando-se pecaminosa quando configurar ocasião de pecado para si ou para o outro – levando ao pecado contra a castidade, por pensamentos e olhares..

"O vestido, além de responder a uma necessidade natural de cobrir o corpo, é também uma manifestação da cultura de um povo, e mediante a moda podemos adivinhar a sensibilidade de uma época e a sua visão do homem." (María Jesús Prieto López)

Engana-se quem acha que a moda é fútil por si só. Quando falamos de moda e elegância, ainda mais com a aplicação a partir da modéstia, estamos, sim, falando de coisas de alta importância. "A elegância não é sobre a roupa, mas sobre a maneira como você a usa." (Honoré de Balzac)

Falar de moda e modéstia é falar da mulher, da criação de Deus, da antropologia filosófica e teológica, do comportamento humano, da moral, da ética, da pureza. É celebrar o estilo e a virtude. É pregar que a feminilidade é receptiva, e todo o universo psicológico da mulher se expressa pelo que ela veste. É saber que ser mulher é um privilégio e uma responsabilidade.

A verdadeira elegância vem de dentro e o estilo reflete quem você é. A elegância, se for meramente externa, é uma corrupção da verdadeira. É uma deterioração, uma distorção da legítima nobreza da alma, pois não se move pela caridade, não brota do espírito, não se manifesta no exterior como um sinal do interior: é o externo pelo externo, uma elegância puramente carnal.

Um exemplo disso é a França absolutista: "A alta sociedade francesa do século XVIII foi, entre muitos outros, um trágico exemplo disso. Nunca uma sociedade foi mais refinada, mais elegante, mais brilhante, mais fascinante. Os mais variados prazeres do espírito, uma intensa cultura intelectual, uma arte finíssima de agradar, uma requintada delicadeza de maneiras e de linguagem, dominavam aquela sociedade externamente tão cortês e amável, mas na qual tudo – livros, contos, figuras, alfaias, vestidos, penteados – convidava a uma sensualidade que penetrava nas veias e nos corações, e na qual a própria infidelidade conjugal quase já não surpreendia nem escandalizava. Essa sociedade trabalhava assim pela sua própria decadência e corria para o abismo cavado pelas suas próprias mãos." (Pio XII. Alocução ao Patriciado e à Nobreza Romana, em 1945, in Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, 14/1/1945, pp. 276-277)

Pregar a modéstia e a elegância, e ter uma visão positiva de certa moda, é dizer às mulheres que elas devem se vestir de acordo com a sua dignidade.

E isso não é futilidade!



4. Dress code católico

Embora católicas devam, sim, cuidar do modo como se vestem, devam, sim, atentar ao pudor, ao recato, à modéstia, devam, sim, vestir-se sem desagradar a Deus, devam, sim, evitar a moda mundana, elas não seguem um "padrão rígido", uma "lista do que pode e do que não-pode". A ética de alguns grupos cristãos modernos, na maioria dos casos, é puritana (no sentido moderno e que extrapola o próprio puritanismo dos primeiros calvinistas) ou, em algumas igrejas, feita por "usos e costumes".

Católicas deveriam buscar a modéstia – e meu principal apostolado tem isso como um de seus objetivos –, mas sem aquela "neura" por medir centímetros ou procurar SEMPRE enquadrar uma determinada roupa no rol das peças proibidas. Claro, algumas vestes são absolutamente inadequadas, pela impossibilidade de adaptá-las a um modo mais recatado, ou por não ficar modesta em nenhum tipo de corpo. Em geral, porém, a católica bem formada sabe que, ao mesmo tempo, deve ocupar-se da virtude do pudor e do recato, e igualmente raciocinar por princípios e não por "listas".

Ora, se é verdade que não há um "padrão católico", um "catholic dress code", é também verdade, por outro lado, que as católicas, como as evangélicas e judias, prestam também atenção em formas, decotes e comprimentos! Não para analisar os milímetros, não para condenar todo e qualquer tipo de decote, mas prestam atenção, sim, e as análises sobre modéstia em geral erram ao não incluir essas mulheres, ignorando-as como se só judias e protestantes buscassem a modéstia.

Chanel já ensinava: "Moda é arquitetura: é uma questão de proporções." Há, pois, uma necessidade de saber adequar a roupa ao estilo de corpo, ao ambiente, à cultura, ao momento do dia, para que soe elegante. Uma vestimenta absolutamente deslumbrante pode, magicamente, tornar-se brega apenas pela perda do senso de proporções.

Não só na elegância essa regra se aplica. Para a modéstia vale o mesmo, e, dado que esta é um plus em relação à elegância, é preciso ter ainda mais cuidado

5. Ojeriza à calça

No outro extremo, está um olhar escandalizado (e escrupuloso) quanto à calça feminina. Os pontos anteriores falavam de uma consciência mais relaxada, e agora estamos diante de uma rigorista. Embora não tenhamos que estar em cima do muro, no meio termo, relativizando tudo e nos comportando como os mornos, condenados no Apocalipse e que serão "vomitados", há um justo termo. Não um meio termo, mas um justo termo, e justo termo transcendente, ou seja que é equilibrado e está acima dos extremos e não posicionado como uma síntese deles.

Falei do tema da calça aqui: http://www.blogfemina.com/2014/05/pode-mulher-crista-usar-calcas.html

Resta dizer que é opção pessoal da cristã não usar por motivos variados. Mas se essa opção se transforma em uma neurose espiritual contra a calça, em um renegar, de pronto, o uso da calça, em torcer o nariz, e considerar, na prática, o uso da calça por mulher como mera tolerância, cuidado! Você já pode estar militando mais no puritanismo gnóstico do que no cristianismo.



6. Fita métrica na cabeça

Esse sinal guarda perfeita correlação com o anterior. Claro que a modéstia é algo bem concreto. Claro que devemos nos policiar e ensinar umas às outras.

Mas ficar medindo milímetros a todo instante, como eles separassem o céu do inferno, é não só psicológica e emocionalmente doentio como também espiritualmente. Recebo seguidamente e-mails e mensagens no Facebook de meninas que dizem que, após aderirem a uma concepção mais rigorista de modéstia, condenando calças como satânicas, medindo cada detalhe da saia etc, se transformaram em neuróticas da fé. Moças que se concentraram mais na busca pela "roupa ideal para a santidade" do que se empenharam no cultivo da fé, da esperança e da caridade, no trato íntimo com o Senhor, na frequência aos sacramentos e em uma vida profunda de oração. O resultado foi desastroso: foco no exterior e diminuição da vida interior gera farisaísmo e santidade nula. A alma secou por não ser alimentada. A vida cristã ficou reduzida a medir o comprimento da saia. Mais ainda: a modéstia adotada nunca era suficiente e as medidas foram cada vez aumentando, com a consequente "condenação ao inferno" de quem usasse meio milímetro a menos do que elas. Namoros santos com caras legais que as ajudariam a buscar a Deus foram rompidos. Gente de igreja, amizades sinceras, foram se afastando. Até que caíram em si e viram que não buscavam a Deus verdadeiramente, não imitavam de fato Jesus, Maria e os santos, e nem faziam apostolado. Mudaram a tempo, com a graça de Deus e o apoio do Femina.

Há a crescente tentação, em muitas meninas que buscam a modéstia, de um certo elitismo espiritual, aliado ao fetichismo de certas práticas. O véu e a saia se tornam fetiches, objetos quase mágicos, capazes de santificar quem os uso e, na prática, dispensar da oração, dos sacramentos, e de uma vida verdadeira com Deus, contentando-se, quando muito, com repetições de fórmulas - que são importantes, mas que desacompanhadas, no mais das vezes, de um coração entregue ao Senhor, se tornam vãs. Claro que o discurso não é esse, mas a prática é. O sentir-se mais cristã, mais católica, mais santa, porque a saia é mais comprida ou porque "não anda na moda", e até o exagero de defender que não se deve usar maquiagem e batom e orgulhar-se da simploriedade nas vestes como se fosse um uniforme de santa, é algo cada vez mais frequente em certos ambientes católicos...

Preocupe-se com a sua vestimenta e faça com que ela agrade a Deus. Mas não inverta as prioridades e não faça do tema "modéstia" a única (ou quase) preocupação do seu dia, da sua direção espiritual, das suas conversas e dos interesses. E, sobretudo, não fique apontando quem é imodesta sempre que passar por uma. O risco é ficar só falando disso, já que a maioria das mulheres, mesmo as bem intencionadas e puras, não é formada suficientemente nessa virtude.

As mulheres não são imodestas por serem sem-vergonhas. São imodestas por estarem longe de Cristo ou não terem suficiente formação. Apontar o dedo, condenar e xingar não resolve. Tentar dar um manual de práticas modestas nas primeiras conversas também não. A virtude e a santidade, até nas roupas, é uma consequência do fiel seguimento de Jesus Cristo. Brilhe a tua luz diante das mulheres e faça a diferença pelo exemplo. Jogue fora, sem embargo, a "fita métrica ungida". Ela não é ungida coisíssima nenhuma!

Insuspeita é a fala de um sacerdote da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por D. Marcel Lefebvre, a respeito d os usos nos vestuário das mulheres por eles atendidas: "A tendência no vestir que se tornou, aos poucos, dominante entre nós refletem a modéstia – que é necessária – mas a modéstia não está limitada às modas Tradicionais. Ao querer impor essas regras de vestimentas, nós desanimamos as pessoas mais do que as atraímos. A conseqüência é um tipo de libertação excessiva destas regras, que as leva à imodéstia. Uma outra conseqüência é um tipo de representação esclerosada da Tradição, que parece viver nos anos 50 – não muito atraente!" (Pe. Guillaume Gaud, FSSPX)

7. Falsa concepção acerca do ditado "menos é mais"

Isso também tem relação com os pontos 5 e 6. Em moda, dizemos que o menos é mais, ou seja, que não é para andar vestida de árvore de Natal. A elegância está em saber usar poucas coisas chamativas e usar muito do consagrado, do atemporal. Claro, respeitando o seu estilo pessoal  (falei mais dos estilos aqui; dá uma lida).

Algumas das rigoristas da modéstia pegam essa expressão e a usam para justificar sua pregação (que é pessoal, mas que apresentam como se fosse doutrinária e uma tábua de salvação contra a falta de castidade e pureza da sociedade contemporânea) de que a mulher cristã não deve usar jóias, acessórios, maquiagem, nada disso. Suas roupas devem ser obrigatoriamente simples (no sentido de nunca comprar nada mais elegante ou sofisticado ou de marca), beirando o simplório. Vestem-se e exigem que todas se vistam, sob pena de pecado, quase como se religiosas fossem, só que sem hábito.

"[N]ão se proíbe às mulheres um ornato moderado", diz Santo Tomás, "mas o excessivo, desavergonhado e impudico." (S. Th., II-II, q. 169, a. 2)

Continua o santo: "as mulheres podem adornar-se licitamente para conservar a elegância de seu estado, e inclusive acrescentar algo para agradar a seus maridos." (S. Th., II-II, q. 169, a. 2) 

"Não quisera que te precipitasses em emitir juízo de condenação obre o uso de adornos de ouro e vestidos, a não ser contra aqueles que, não estando casados nem desejando fazê-lo, têm obrigação de pensar em agradar a Deus." (Santo Agostinho, Ep. ad Possidium) Ou seja, é virtuoso que a esposa se arrume com elegância e se enfeite para agradar o marido, ou que outra, solteira, mas que deseja casar-se, também se arrume e se enfeite a fim justamente de conseguir o sacramento matrimonial.

Aliás, esse andar extremamente simplório, para uma leiga casada ou quer se casar, viver em sociedade, e cumprir sua vocação dada por Deus, pode ser sinal de vaidade espiritual fortíssima: "Não só no esplendor e na pompa corporal, senão nos vestidos mais vis e degradantes, se pode buscar vaidade." (Santo Agostinho, De Serm. Dom. in Monte)

Conversando com uma amiga lá de Minas Gerais, e que já veio me visitar aqui no Sul, a Alessandra Leão Salvioni, esposa, mãe, católica, psicóloga e consultora de moda e imagem, concordamos que a modéstia é também não querer atrair a atenção exageradamente para si, mas, ao contrário, ficar agradável aos olhos do outro, não criando excitação nos homens que não seu marido nem surpresa demasiada nas mulheres.

Dizia a Alessandra que, por isso, a "perua" não é, em profundidade, modesta. Pode até usar roupas recatadas, mas no fundo não vive a verdadeira modéstia, dado que ela tem tantos adereços que, por onde passa, só chama a atenção para si mesmo. Por isso que a modéstia e a elegância devem sempre andar juntas, em função do zelo e da discrição próprias da condição feminina. Continuava a Alê a dizer que uma mulher "mal vestida e com cara de doente, sem maquiagem, não é modesta, pois está atraindo olhares para si, por ser excessivamente diferente das demais".

A Alessandra está correta. Meu marido e eu meditamos sobre isso certa feita. É evidente que a mulher católica que vive a modéstia, que acredita na virtude do pudor, não andará conforme modas mundanas, não usará decotes ousados, roupas coladíssimas ao corpo sem a necessária proteção, nem peças curtas demais. Todavia, o "ar" da roupa de uma mulher católica, não é diferente da sociedade em que vive. Ela não adota um uniforme de uma comunidade separada - exceto se realmente for, como o caso das religiosas. Pensar em leigas, solteiras ou casadas, que destoam completamente, em suas vestimentas, do mundo em que estão inseridas, parece-me a perfeita realização do que alguém certa vez declarou ser uma espécie de "amishização da fé católica".

Em linhas gerais, a roupa da cristã piedosa e da mulher que não se preocupa com o pudor não diferem nem devem diferir, pois a roupa é um dado da cultura e ambas estão inseridas no mesmo ambiente. Notem, todavia, que falo "em linhas gerais", ou seja, que ambas, modesta e imodesta, usarão, basicamente, as mesmas coisas, pois é isso que, habitualmente, é o comum em sua época e lugar: tal tecido da moda, determinado corte que é a tendência, calças, saias, vestidos, tipos de adereços ou de maquiagens etc. Ressalto novamente que falo "em linhas gerais", de sorte que, nos detalhes, se verá claramente que a mulher piedosa veste-se de modo recatado. Mas é uma peça recatada - ou um uso recatado de uma peça neutra -, que deriva do mesmo gênero de roupa que todas usam em sua ambiente sócio-cultural. Não é algo saído da ficção, ou de outro planeta, ou de uma época que já passou.

Vestir-se exatamente como em um determinado período histórico, ou local, que não o seu, se não for uma fantasia, soa anacrônico, e chama a atenção de modo excessivo para si mesma. Alguém que saia nas ruas exatamente como se estivesse na Era Vitoriana poderia estar coberta do tornozelo ao pescoço, porém não seria modesta.

Se eu apareço em uma festa de família ou entre amigos, estarei com saia ou calça tanto quanto outras estarão, e isso não me fará destoar de modo a chamar tanto a atenção para mim. Não provocarei surpresa com um figurino absolutamente distinto do que é visto como normal. Claro, isso não é desculpa para usar minissaias, calças "socadas", blusinhas mostrando os seios etc. Recordo que falei "em linhas gerais". A roupa que usarei é a mesma, no macro, que as demais, todavia se diferenciará pelo micro, pelo detalhe. Se uma veste uma calça "socada", estarei com uma calça decente. Se outra veste uma saia curtíssima, estarei com uma saia que não revele o que não deve ser revelado. Mas ambas estarão de calças ou de saias.


Alguns poderão objetar que só o fato de andar modestamente, ainda que em linhas gerais com o mesmo vestuário das demais mulheres, já me faria chamar a atenção. Sim, faria, porém não de modo exagerado. Uma moça, ainda que com roupas bem modestas, mas sem maquiagem que lhe dê um "brilho", vestindo peças bregas, desconexas com a tendência atual, combinando pouco, parecendo uma "maria-mijona" ou membro de alguma seita, atrai olhares para si por causa de seu aspecto, e isso não é modesto, como falei. Já outra que está também com roupas bem modestas, mas no geral não destoa das demais, atrai olhares para si apenas pelo detalhe. É como se aqueles que a notassem, percebessem algo de diferente e se encantassem com isso, ao contrário de ter repulsa. Olhariam para essa segunda mulher modesta - a que também é elegante - e veriam que ela não precisa adotar o visual de uma seita qualquer para respeitar o pudor, veriam que ela somente está recatada, discreta, mas dialogando com a cultura em que vive, e não parecendo uma personagem de romance ou uma militante de qualquer tipo de utopia. Ao agradar os demais, se há reta intenção, agrada-se a Deus, e se celebra a verdade pela via da beleza, a via da pulcritude, tão cara à espiritualidade católica.

Vejam que a rainha Vasti é chamada pelo rei "com o diadema real, para mostrar ao povo e aos grandes toda a sua beleza, porque era formosa de aspecto." (Et 1,11)

O Doutor Angélico é claro ao dizer que, embora a moral seja atemporal e absoluta, a condição dos vestidos exteriores será ou não modesta segundo a cultura própria, dado que "o ornato exterior deve corresponder à condição da pessoa segundo o costume comum." (S. Th., II-II, q. 169, a. 2)

E São Francisco de Sales, o grande incentivador do apostolado e da vida de piedade dos leigos, diretor de muitas almas, e incansável conquistador de calvinistas na Genebra da qual foi Bispo, ensinava: "[N]o tocante à matéria e à forma dos vestidos, a decência só se pode determinar com relação às circunstâncias do tempo, da época, dos estados ou vocações, da sociedade em que se vive e das ocasiões." (Filoteia, III, cap. XXV)

Devemos, as católicas, ser discretas, mas não sem graça. “Alguns infelizes impulsos Jansenistas ou Puritanos na imaginação Católica moderna têm equiparado modéstia a esconder a figura feminina. Aparentemente, muitas mulheres católicas pensam estar sendo modestas vestindo roupas não atraentes.” (Regina Schmiedicke)

8. Desconforto ao falar ou ao expor um pouco o seu próprio corpo

O pudor protege o corpo, sobretudo o feminino, qual um santuário. "A prática do pudor e da modéstia, no falar, no agir e no vestir, é muito importante para criar um clima apropriado à conservação da castidade, mas isto deve ser bem motivado pelo respeito do próprio corpo e da dignidade dos outros. Como já se mencionou, os pais devem vigiar a fim de que certas modas e certas atitudes imorais não violem a integridade da casa, particularmente através do mau uso dos mass media." (Pontifício Conselho para a Família, Documento "Sexualidade humana: verdade e significado. Orientações educativas em família", de 8 de dezembro de 1995, 56)


Sem embargo, Deus, aos nos criar mulheres, nos fez diferentes e essa diferença não pode ser anulada por uma concepção extremista do pudor, negando o que é propriamente feminino no nosso corpo, que é bom. Parece-me que, por vezes, estamos entre dois exageros: a exposição desmedida do corpo, em nome do falso princípio de que o que é bonito é para se mostrar, e a cobertura demasiada do corpo ou “enfeiamento” das vestes, em um desprezo não só da elegância e da pulcritude, como do próprio corpo, em uma noção um tanto gnóstica tão cara aos cátaros.

O corpo não é maldito. É criação de Deus. Uma coisa é querer, então, proteger o corpo, sobretudo certas partes, de olhares maldosos, e buscar a pureza. Outra é ter verdadeiro desconforto ao falar do corpo, ao pensar no corpo, ao olhar para o próprio corpo (já ouvi relatos de meninas que acham que pecam quando estão nuas tomando banho e, por isso, evitam estar peladas diante do espelho antes de se vestir). A exposição desmedida do corpo é um mal, mas não podemos nos envergonhar dele nem querer cobri-lo de modo a anular a nossa feminilidade.

Sejamos realistas. Não somos anjos. Não somos puros espíritos. O homem se apaixona pela mulher primeiramente pela estética. A beleza do corpo não é determinante, mas conta muitos pontos. Isso não autoriza a que andemos seminuas por aí, exibindo decotes avantajados e vestimentas que salientem nossas curvas. Mas também não se deve confundir modéstia com vestes islâmicas radicais, coisa que parte de um pressuposto equivocado quanto ao corpo feminino e sua função inclusive na conquista rumo ao casamento. O homem é atraído pelo olhar. A modéstia deve proteger o olhar maldoso, não todo e qualquer olhar, até porque sem olhar o homem será atraído como por determinada mulher? Muitas modestas radicais não arranjam bons namorados e não sabem o motivo...

Tenho falado muito sobre a questão da banalização da mulher, com seu corpo, sua dignidade. Muito tenho comentado e vejo uma onda conservadora, surgindo para combater este mal que o feminismo nos trouxe. Graças a Deus vejo mulheres, e não mais só homens, surgindo para levantar bandeiras contra esta vulgarização disfarçada de modernidade que até mesmo parte da mídia vem tentando nos impor. Diluídas em novelinhas açucaradas e outros programas, pautam a fraca formação intelectual do povo brasileiro.

Mas o que era para ser um valor, um ódio ao erro, acaba se transformado em outro. Há um cheiro de puritanismo no ar. Refiro-me a isto quando católicas conservadoras, empenhadas comigo na luta pela modéstia e pelo pudor me escrevem dizendo que mulher não pode usar calças, nem mostrar o ombro e, "que horror", quando mostram o colo!

Evidentemente que não sou a favor da máxima de que o que é bonito é para se mostrar. O que é meu, bonito e íntimo mostro para meu marido, meu corpo é dele. Todavia, não penso que por causa disto deva andar coberta dos pés à cabeça, como as muçulmanas o fazem, ou com certas crentes de algumas seitas protestantes. Até porque nelas uma virtude muito bonita de agradar a Deus e ao marido se transforma em uma corrupção da verdade.

Para os católicos, ao buscar o equilíbrio, o bom senso nos ajuda. E não temos nenhuma listinha de "pode" e "não pode". A verdadeira modéstia é razoável, pois a fé é razoável, Deus é razoável. O Senhor nos criou, como já disse, com evidentes diferenças entre homem e mulher, não só nos aspectos psicológicos e afetivos, como corpóreos, e descabe a nós proscrever o que Ele mesmo fez de modo claro, com roupas que, em nome de um mal-entendido conceito de pudor, tiram toda a graça da feminilidade, deixando a mulher brega, mal-vestida, cabisbaixa... Entre os extremos da imodéstia e falta de pureza nas roupas, de um lado, e da concepção de que o pudor se mede com fitas milimétricas ou com cartilhas do que pode ou não usar, há que se entender exatamente o que venho tentando explicar. O exagero de alguns apóstolos da modéstia, condenando as calças femininas ou pontificando determinados tecidos ou comprimento de saias e blusas, de modo absoluto, sem levar em conta os tipos de corpos, os ambientes, a época, a cultura, as demais peças que compõem o look, demonstra uma compreensão pessimista da pessoa humana, que fere sua dignidade e parece ver em toda mulher um objeto obrigatório de pecado e em todo homem um tarado em potencial. É óbvio que se peca pelos olhos. É óbvio que é possível ter tentações contra a castidade ao ver uma mulher seminua. É óbvio que uma mulher imodesta concorre para o pecado do homem que a vê. Sem embargo, como se pode perceber no decorrer deste despretensioso livro, é preciso aplicar a modéstia às circunstâncias bem determinadas, e não afastar as pessoas umas das outras, pela repulsa ou pelo entendimento prático de que o corpo feminino seja pecaminoso por si só. Ele é bonito, não deve ser total ou totalmente quase mostrado, mas por outro lado, não total ou quase totalmente coberto como se carregasse uma chaga ou fosse, em absoluto, errado um homem se sentir atraído por uma mulher. A atração pelo corpo feminino é natural e, por isso, neutra: o pecado está no grau da atração e no que fazemos e pensamos com base nesse sentimento.

Também se deve saber que cada pessoa tem uma personalidade e um tipo físico. O que fica bem para mim talvez não fique em outra. "A melhor cor em todo o mundo é a que parece boa em você!" (Coco Chanel) Se sou mais avantajada, não posso usar tomara-que-caia, bem como se sou um pouco estabanada, corro o risco de ficar indecente. O fundador dos Irmãos das Escolas Cristãs – conhecidos como lassallistas – compilou um seu opúsculo exatamente isso: "Para que uma roupa seja adequada, é preciso que convenha à pessoa que o usa e que seja proporcional ao seu tamanho, à sua idade e à condição." (São João Batista de La Salle. Regras de Cortesia e Urbanidade Cristã, 2,3,1,2) Mais adiante, o mesmo santo continua: "O que convém a um não é, certamente, apropriado ao outro.” (Regras de Cortesia e Urbanidade Cristã, 2,3,1,5)

Cabe ao cristão se conhecer; isto sim é regra. Estudar seu temperamento, saber seus pontos fortes e fracos. A partir daí, saberá o que cai bem a si e nas ocasiões a em que estará presente. A caridade para com os outros começa com o autoconhecimento.

"Seus vestidos devem ser justos o suficiente para mostrar que você é mulher, e soltos o suficiente para mostrar que você é uma dama." (Edith Head)

9. Pensamento de que qualquer contextualização é sinônimo de relativismo

Enfim, chegamos ao último sinal. Sempre dizemos: modéstia é absoluta, sua exteriorização é relativa. A virtude não muda, mas os modos pelos quais ela se expressa mudam conforma a época, o ambiente, a cultura, e o próprio corpo da mulher que veste determinada roupa.

Quando falo isso, sou acusada por alguns de relativismo.

Nada mais falso! Relativismo não é considerar que existam coisas relativas, e sim que não haja nada absoluto. A fuga do relativismo não nos autoriza a cair no absolutismo. Ok, a verdade não é relativa. Ok, existem coisas absolutas. Mas, assim como nem tudo é relativo, nem tudo é absoluto.

Contextualizar, matizar, mostrar que algo relativo é justamente relativo não é relativismo!

A modéstia pede que cubramos aquilo que não interessa aos outros, que nos é nobre, que nos é caro. Quem é que disse que o que é bonito necessariamente tem que ser mostrado? O raciocínio não seria outro? O que é precioso deve ser guardado, isso sim!

Isso não quer dizer que, preocupadas com o pudor, tenhamos que ir à praia cobertas de burca afegã.

O pudor é uma virtude e, como tal, perene, eterna. A exteriorização dessa virtude, todavia, pode seguir padrões culturais. Sem relativismo, claro, sem concessões a uma moda sensual, ao culto ao corpo, ao apelo sexual, mas também sem nos isolarmos em uma redoma. 



Embora a modéstia seja sempre a mesma, a aplicação de seus princípios guarda uma correlação entre vários fatores: tipo de corpo da mulher, lugar que se frequenta, atividade que se faz, mundo à volta, aspectos sociais e culturais.

É de um Papa canonizado, ainda que se expresse nessa ocasião como doutor privado, o seguinte ensino. Recordemos: santo, com vida de santidade reconhecida pela Igreja e especialista justamente no tema da Teologia do Corpo. "Já que a roupa é considerada em relação ao problema do pudor e do impudor, talvez seria proveitoso considerar o seu papel funcional. Pois, assim como há certas situações objetivas, nas quais até a total nudez do corpo não é impudica, porque a função própria desta nudez não é provocar nenhuma reação a respeito da pessoa como objeto de uso, assim também com certeza há várias funções das várias maneiras de vestir-se ligadas `a parcial ou total nudez do corpo, por ex., no trabalho físico, durante o calor, no banho, perante o médico. Tratando-se de qualificar moralmente a maneira de vestir-se, é preciso partir da variedade de funções, às quais a roupa deve servir. Não deve considerar-se impudica a pessoa que usa determinada roupa, mesmo que apareça a nudez parcial, se realiza uma função objetiva. No entanto, seria impudico o uso de tal roupa for a de sua própria função, e assim também deve ser percebido. Por exemplo: não é contrário ao pudor tomar banho de maiô, mas sê-lo-ia usá-lo na rua ou na avenida." (São João Paulo II. Amor e responsabilidade)

Na visão da Igreja, a moral deve ser pensada por princípios, não por regras de pode e não pode, pois isso é próprio do puritanismo, de matriz gnóstica. Assim que, a cada circunstância, os princípios devem ser invocados, não um recurso a uma lista. E, com base nesses princípios, em coisas contingentes, pode-se ter conclusão distinta.

Não há uma regra "isso é modesto", "aquilo é imodesto". Evidentemente, que há situações que saltam aos olhos quanto ao erro, por afastarem a virtude do pudor. A maioria dos "tomara-que-caia", a "minissaia", e certos maiôs, por exemplo, são absolutamente incompatíveis com a modéstia cristã. Outras roupas são imodestas dependendo da situação.

Não deixemos, outrossim, de valorar o componente cultural e de aceitação social. Não deve ser determinante - uma sociedade em que seja “normal” andar pelado, nem por isso deixará de ferir o pudor. Porém, são fatores a considerar, sim.

Combatamos pelo pudor, pela modéstia, pela moralidade. Sem nos atermos a um mundo ideal dos anos 50.

Calças apertadas, "socadas", por exemplo, são igualmente um atentado ao pudor. Isso não quer dizer que todas as calças femininas tenham que ser como as de palhaço de circo. Claro que as partes pudicas e as nádegas não devem ser mostradas com calças apertadas, e uma roupa por cima dessas partes resolve o problema.

Não quero me aproximar de um certo tipo de "comunismo das vestimentas", onde todas as mulheres acabariam tendo não só uma regra para se vestir, como quem sabe para falar, andar, agir e tudo mais. 

Como um sacerdote amigo nosso respondeu ao Rafael, meu esposo, em uma conversa que tiveram tempos atrás:

"Seria tudo mais fácil se tivéssemos tabelas sobre ‘o que se pode ou não usar’, mas, como sabemos, a moral católica não funciona assim.

Funcionamos com princípios. E, o princípio que poderíamos partir para tentar achar alguma luz para este caso é a própria definição da virtude da modéstia. Santo Tomás a define como 'virtude que governa nossas ações, gestos e atitudes de modo que, no possível, não demos aos demais - nem a nós mesmos - ocasião de apetências sexuais desordenadas.'"

Percebem que caminho tendencioso estaremos seguindo? Onde estará o respeito as individualidades de cada um? Há o cinza, amigas. E onde a Igreja não legisla, cabe a nós discernirmos o que é correto, bem como o que cabe para cada ocasião.

Na S. Th., I-II, q. 7, Santo Tomás trata de esclarecer que as circunstâncias dos atos humanos são também fundamentos da moral. A moralidade é absoluta, mas a aplicação de seus princípios leva em conta aspectos circunstanciais. Isso se aplica, como visto, às roupas.

Aliás, Santo Agostinho, na Carta 54, diz não poder condenar quem comunga todos os dias e quem se abstém disso e, depois, dá uma longa explicação de como os costumes mudam de lugar para lugar. Continua que, exceto por uma ordem explícita do Papa, não há razão para violar as liberdades dos diferentes povos. Se é costume generalizado, e aceito pela maioria dos bons cristãos, honrados, que buscam a santidade, que comungam com os ensinamentos da Igreja, que a mulher use calça, então esse uso é permitido. Não se trata de democracia para escolher o que é certo ou errado, mas saber que as roupas dependem dos costumes e, associando o que diz Santo Tomás e Santo Agostinho, ele é fonte da moralidade. Os costumes atuais dos cristãos e suas intenções e sensibilidades são elementos que podem mudar a apreciação moral. 

Essa relativização da moda e sua interpretação da virtude do pudor no vestir de acordo com os costumes gerais, pode ter seu exemplo na comparação entre a iconografia – que é um locus theologici – que representa Cristo com os cabelos compridos e a advertência bíblica, da lavra de São Paulo Apóstolo, de que os homens não o deveriam portar. Não é uma contradição entre o Mestre e o discípulo, mas a constatação de que diferentes costumes no trajar geram "regras" diferentes. São Paulo falava a um público no qual os cabelos compridos masculinos soariam imodestos. É um indício claro de que há, nesse terreno, coisas absolutas e relativas. Também o Concílio de Jerusalém proibindo carne sufocada para os pagãos - ou S. Paulo proibindo de comer carne a alguns, enquanto permitia a outros -, podem ajudar a iluminar essas situações onde as circunstâncias jogam papel relevante no juízo moral.

Quanto a Igreja diz "mulheres devem usar roupas de mulher", ela não está definindo qual é a roupa de mulher. O que vai definir é a cultura, o ambiente, o caimento da roupa, o tipo de corte, o biótipo da mulher em específico. Isso não é relativismo. Relativismo seria relativizar a expressão "mulheres devem usar roupas de mulher", pois isso, como uma verdade, é necessariamente absoluta e objetiva. Já o conceito de roupa de mulher não é uma verdade, e é variável. O modernismo, vejam, foi condenado por ser a variabilidade do conceito de cada dogma, mas isso não impede que outras coisas possam variar. Verdades não variam, não se adaptam, mas o conceito de roupa de mulher não é uma verdade. Temos, claro, que sempre usar roupa de mulher, mas o conceito disso pode mudar. Se eu usasse uma calça jeans com corte masculino ou um terno com gravata, igual ao meu marido, algo estaria errado, mas não uma calça ou um terninho com corte feminino: e reconhecemos bem um quando o encontramos, não?

"Esta é uma das questões particulares [a roupa] nas quais o problema do pudor ou do impudor aparece com mais frequência. Seria difícil discutir agora as nuanças da moda feminina ou masculina enquanto se relacionam com o problema mencionado, o problema do pudor e do impudor certamente se relaciona com a questão da moda, ainda que talvez não da maneira que em geral se supõe... Além disso é inevitável que a roupa destaque o valor do sexo, mas não há razão para que contradiga o pudor. Não há nada de impudico no vestir a não ser aquilo que, ao destacar o sexo, contribui claramente para diminuir o valor essencial da pessoa, provoca inevitavelmente uma reação a respeito da pessoa como se ela fosse só um 'objeto possível de uso', por causa do seu sexo, e impede a reação a respeito da pessoa enquanto 'um possível objeto de amor', por causa do seu valor como pessoa." (São João Paulo II. Amor e Responsabilidade)

A absolutização das vestes, como se mulheres sempre devessem usar saias e vestidos, lhes sendo vetadas as calças, ignora as diferenças regionais e temporais. Nem sempre a mulher - e mulher cristã, mulher modesta, mulher de bons costumes - vestiu a mesma coisa. A modéstia não muda. A aplicação de suas regras às roupas muda, e muda porque mudam as roupas, mudam os costumes, mudam os cortes, mudam até os corpos. Dogmatizar a indumentária tem raízes não só no gnosticismo, mas em um etnocentrismo. A Carta a Diogneto, um dos primeiros documentos do cristianismo, dizia que os cristãos não se distinguiam dos pagãos por suas roupas. 

As túnicas femininas do tempo de Cristo, aliás, mesmo as usadas por judias piedosas e pelas primeiras cristãs, deixavam à mostra o braço inteiro e o pescoço. Não se encaixariam em algumas "regras" que algumas radicais da modéstia pregam.

Aliás, essas mesmas "regras" das radicais falam, por exemplo, em não se usar vestidos no joelho, e sim um ou dois dedos abaixo dele. Só que essa mesma regra seria considerada imodesta no séc. XIX: apenas vestidos nos tornozelos eram permitidos. Ou seja, as radicais da modéstia atuais, tão ávidas a condenar as cristãs que prezam a modéstia mas usam calças e saias um pouco acima dos joelhos, estariam condenadas pela aplicação anterior da mesma modéstia. 

O fato é que as radicais, ao misturar a modéstia absoluta com a aplicação relativa da mesma (relativa porque se relaciona com o tempo, com o ambiente, com o corpo, enfim, com os costumes, que, como vimos, é fonte da moralidade do comportamento humano), prendem-se ao que os anos 50 consideravam modesto. Isso parece ter origem na idolatria dessa "época de ouro" dos americanos, no pós-guerra. Os Estados Unidos formam o caldo de cultura ideal para o pensamento sectário: puritanismo do modo de pensar - dado que foi fundado por calvinistas puritanos - e glorificação do pós-guerra. Somemos esses dois aspectos e temos as listas de "pode e não pode", oriundas de setores brasileiros que beberam em algumas fontes católicas mais tradicionais norte-americanas.

Quanto a comparar nossas roupas às que a Santíssima Virgem usaria, teríamos que ter certo cuidado. Primeiro porque ela era consagrada e como tal deve-se diferenciar das demais mulheres, segundo que, basta olharmos as mulheres que eram santas e que se trajavam de forma comum à sua época. E o que nunca faltou à Nossa Amada Mãe foi bom senso e capacidade de se adaptar à realidade que se encontrava, sem nunca perder a caridade e a noção do correto. Depois, é interessante que coloquemos bem claro, em nossa meditação, que temos que imitar, nos santos, a sua virtude, mas não cada comportamento exatamente igual. Do contrário, estaríamos deixando de imitar Nossa Senhora se tivermos relações com nossos maridos, por exemplo.

C.S. Lewis, o autor das "Crônicas de Nárnia", um cristão fervoroso, escreveu:

"Consideremos agora a moralidade cristã no que diz respeito à questão do sexo, ou seja, o que os cristãos chamam de virtude da castidade. Não se deve confundir a regra cristã da castidade com a regra social da "modéstia", no sentido de pudor ou decência. A regra social do pudor estipula quais partes do corpo podem ser mostradas e quais assuntos podem ser abordados, e de que forma, de acordo com os costumes de determinado círculo social. Logo, enquanto a regra da castidade é a mesma para todos os cristãos em todas as épocas, a regra do pudor muda. Um moça das ilhas do Pacífico, praticamente nua, e uma dama vitoriana completamente coberta, podem ambas ser igualmente "modestas", pudicas e descentes de acordo com o padrão da sociedade em que vivem. Ambas, pelo que suas roupas nos dizem, podem ser igualmente castas (ou igualmente devassas). Parte do vocabulário que uma mulher casta usava nos tempos de Shakespeare só seria usado no século XIX por uma mulher completamente desinibida."